Uma carta devagar

Oi, espero que esta carta te encontre bem.

Eu estive pensando sobre a nossa correspondência. Eu gosto de falar com você que está aí lendo. De verdade. Na semana passada enviei um pacote de café para um amigo querido no Rio Grande do Sul. Me tomou um tempo da hora de almoço. Uma amiga moeu o café e precisei andar pelo Centro de Vitória da cafeteria até uma agência dos Correios. Foi um trajeto curto. Mas nele todinho eu estava pensando sobre esta carta. Não esta especificamente, mas em nossas correspondências semanais.

Eu gosto de escrever aqui. Atualizar sobre o meu estado mental que pode às vezes ser parecido com o seu. A gente vive no mesmo mundo, afinal. Acho que temos mais ou menos a mesma idade. Então fora uma experiência pessoal traumática aqui e ali (que pode também ser parecida com a sua por aí) acho que a gente pode se identificar nas alegrias e nos problemas um do outro, né?

Eu estava pensando em como fazer essa carta chegar a mais gente. A figura do papelzinho enrolado dentro de uma garrafa boiando num mar revolto até encontrar um destinatário em terra firme me parece mais degradação do meio ambiente do que eu gostaria. Pensei em publicar mais nas minhas redes sociais. Ultimamente tenho feito isso mais no Twitter. Acho que é a rede que eu mais gosto, talvez pelo tom urgente de apocalipse imediato. O fim do mundo me conforta em algum nível. Eu realmente queria que essa carta chegasse a mais gente.

Eu sou um jornalista. Eu trabalho e/ou tenho contato com ferramentas e números e audiência há quase dez anos. Talvez eu estivesse preocupado demais – profissionalmente – com os números desse nosso encontro periódico. Preocupação que durou o caminho até os Correios e seguiu na minha cabeça e na cabeça de alguns amigos com quem compartilhei a agrura. A gastura. Aí caiu na minha caixa de e-mail uma newsletter, a Bits to Brands, falando sobre SLOW CONTENT.

Com alguma frequência eu e meu amigo Matheus (acho que a essa altura vocês já devem estar familiarizados com ele) conversamos sobre a época de ouro dos blogs na internet. Cada um tinha um espacinho que era só seu e colocava ali muitas coisas. Eu já tive o meu (ou os meus, já fiz tanto blog nessa vida), escrevia umas pretensões ruins à literatura. E conhecia gente que fazia também. E aprendia a fazer coisas para testar no blog. E aconteceu uma comunidade que fazia essas coisas. O Daniel Galera, do ótimo livro Barba Ensopada de Sangue, tinha um blog. As pessoas se visitavam. Caminhavam pelo sol virtual da internet de um ponto a outro para acessar aqueles conteúdos (eu escrevi a palavra “consumir” mas deletei.

Hoje, contudo, estamos todos plataformizados. De certo modo, as redes sociais facilitaram a produção de conteúdo na internet. Eu poderia dizer que popularização a “manufatura”. Você não precisa entender muito de CSS ou html ou subir suas imagens num ftp. Você pode fazer um textão no face e publicar suas fotos no insta. Você até pode, mas não é dono de nada que faz por lá. Todas as plataformas que oferecem a facilidade de poucos cliques para documentar seu cardápio, sua vida e alavancar seu negócio na web na verdade usa todo o seu conteúdo e suas informações para enriquecer. Em algum momento da internet me disseram que se o serviço é de graça o produto é você. E nesse caso nós somos as galinhas dos ovos de ouro dessa fazendinha de likes. Mesmo o Flogão, uma proto-rede-social hoje habitada por jovens caminhoneiros e simpatizantes da vida na estrada, sustentava-se a partir de planos pagos que permitiam modificações e ferramentas específicas. O modelo que hoje a gente vê por aí e chama de freemium.

(na imagem um Mercedes-Benz L 1113, o caminhão mais vendido da história do Brasil)

Slow Web

Conduzi essa reclamação até aqui por Slow Content e Flogão para chegar num rapaz chamado Rodrigo Ghedin. Ele bravamente levantou a bandeira da Slow Web em seu blog de tecnologia (e hoje também de costumes, já que essas coisas se tornaram indissociáveis), o Manual do Usuário. Inclusive acredito que tenha sido lá no blog do Ghedin que li com mais consistência sobre esse movimento de desaleceração para a produção de um conteúdo de qualidade. Ou pelo menos pensado fora de uma lógica de superdesempenho que transforma as pessoas em empreendedoras de si mesmas e esgota física e mentalmente os indivíduos a caminho do burnout e da depressão.

Acredito que esses movimentos de vagar começaram no Slow Food, uma manifestação contrária aos exageros do Fast Food que levam não só a deterioração da saúde mas também do meio ambiente e, por que não, já que tratamos de apocalipse com gracejo por aqui, da sociedade. Tem também o Slow Fashion. Tem um alfaiate no caminho que faço para o trabalho todo dia. Acho que hoje tudo isso tem se resumido no Slow Living.

Se vocês me acompanham há algum tempo sabem como eu detesto escrever por aqui esse monte de termos em inglês, mas confesso que o assunto me demandou, porque qualquer sinônimo para a desaceleração que eu usasse acabaria por parecer pejorativo. Lerdo, devagar, lento. Tudo isso parece ruim. Não é para ser ruim. Comer devagar para tentar sentir o gosto de cada coisa ali, buscar a consciência dos sabores. Ler devagar, buscar a consciência das palavras que juntas vão fazer a gente dançar a música que quem escreve quis tocar para aquele baile.


O bar do Said

Fazer a própria comida e saber de onde vem o alimento, essas coisas que parecem todas meio ripongas me fizeram pensar mais sobre como tem sido escrever essa cartinha. A comida ultraprocessada de cadeias mundiais de restaurante é até gostosa, mas ela, aos pouquinhos, mata o surgimento de pequenos estabelecimentos que fazem a comida com um tempero diferente, o tempero do tempo daquela pessoa que comprou todos os ingredientes e os misturou na ordem que ela sabe para fazer aquela comidinha. É o falafel do Said, libanês muito doido que abre o bar dele na frente lá do serviço oito da manhã. “Said bruduz”, diz ele com o sotaque carregado de quem não parece ter mais tempo de Brasil que eu tenho de vida. Ele produz. Acorda cedo para fazer o pão e o quibe e o falafel e a pasta de berinjela e tudo que tem no freezer além da cerveja que ele serve e toma com você enquanto fuma algum cigarro de marca duvidosa sentado numa cadeira de ferro já meio enferrujada. O bar do Said não é um restaurante bonito e decorado, é uma porta com uma estufa e umas geladeiras e um fogão lá atrás meio escondido e algumas coisas que ele trouxe do Libano. Mas a comida é uma delícia.


Vagarosa

Acho que esse é o ritmo dessa carta. Mesmo parecendo um fluxo de consciência bem do maluco, ela leva o tempo dela para ser escrita. Vou juntando os assuntos ao longo da semana e sento para juntar todos eles e tentar fazer com que eles se conectem com algum sentido. Eu gosto de enviá-la toda terça-feira. Ritmo é um conceito interessante para a gente aqui. É importante para mim que você saiba que eu vou te dar notícias uma vez por semana. É também importante para mim ouvir de você como vão as coisas por aí. O que essa correspondência te fez lembrar? Você viu algum filme sobre algum dos assuntos que lembrei de te contar? Essa interação cria aqui entre nós um sentimento de pertencimento, de comunidade, de reunião. Ou eu pelo menos espero que isso aconteça. Não é sobre o destino, sobre a quantidade de curtidas que esse texto vai ter, até porque ele chega aí na sua caixa de e-mail. Eu queria aumentar a quantidade de pessoas inscritas para receber esta carta. Eu queria mais curtidas. Desejava crescer. Mas para que? Fui confrontado com essa pergunta por minha amiga artista e companheira de Gato com Chapéu de Alumínio Leila Kelly. Ela se fez essa pergunta dia desses nos stories: “estou criando, fazendo arte, ou apenas trabalhando para o Instagram?”

A pergunta é pertinente, até porque sem o Instagram talvez ela não alcançasse as pessoas que alcança hoje. É mais fácil criar um perfil lá que fazer um site com para publicar as coisas dela. É mais fácil aparecer no feed das pessoas que enviar links por aí a esmo. É mais fácil querer fazer com que essa newsletter cresça para assim ela crescer mais e as pessoas falarem mais dela e assim ela crescer mais. Mas para que? Eu gosto mesmo é de receber as respostas (que tal responder essa carta hoje?) e responder logo depois. Eu gosto de conversar com você sobre o que eu falei aqui e sobre tudo mais que você quiser falar. Mesmo que eu apareça por aqui com curiosidades esdrúxulas.

Açaí é Iaçã ao contrário

São mais de um milhão de toneladas de açaí produzidas por ano. Mais de 95% disso tudo é proveniente do Pará. Lá o açaí é consumido com camarão seco, farinha, charque e outros tipos de coisas salgadas. O açaí com farinha é um alimento de força. Oferece ao trabalhador a energia que ele precisa para aguentar a jornada desgastante do dia. A sementinha roxa do açaizeiro é pilada até formar uma pasta hipercalórica completamente diferente do açaí das açaiterias por aí. Eu nunca comi e tenho vontade.

Os irmãos Gracie, lutadores mundialmente famosos, uma dupla de surfistas que levou do Brasil para vender a polpa da fruta em Los Angeles e outros golpes de sorte fizeram o açaí se popularizar como esse meio que sorvetinho que a gente toma cheio de guloseimas. Mas ele é pasteurizado e misturado com guarané e outras coisas que fazem um mix muito diferente do açaí consumido no Pará, que continua com 60% do consumo total da fruta. Outros 30% são do Brasil e 10% viaja o mundo.

O açaí tem outro gosto.

Existe uma lenda sobre o surgimento do açaizeiro. Uma tribo que habitava o Pará tever um boom populacional e, como consequência disso, fome. O líder indígena teve uma ideia para resolver o problema, matar todos os recém-nascidos. A filha do cacique, Iaçã, estava grávida. O neto não seria poupado, então a gestante pediu às entidades espirituais que a ajudassem. Durante a noite a índia seguiu o choro de uma criança e desapareceu. Durante a manhã, a tribo encontrou Iaçã morta aos pés do açaizeiro e a fruta alimentou os índios e impediu os sacrifícios.


Esta carta foi escrita ouvindo o primeiro disco de uma cantora japonesa chamada Hako Yamasaki. A indicação foi do amigo Bruno, que também lê esta carta. Que tal responder e me indicar um disco diferentão?

Segue com bravura, segue com cuidado. Deixa o coração bater sem medo.

Eu sou o Wing Costa, mas você já sabia disso.

[este texto foi originalmente publicado na newsletter A Presente Epístola em 6 de outubro de 2020]

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