Um dia de 19 minutos

Eu acordo invariavelmente cedo. Às vezes volto a dormir. Mas um primeiro despertar já aconteceu por volta das seis e pouco. Às vezes esse despertar é acompanhado de uma leitura dos e-mails e newsletters que eu assino. Às vezes tem alguma coisa do trabalho que eu já faço da cama mesmo, já estou ali com o e-mail aberto, não é mesmo? Depois disso, ainda meio sonolento, vou pro Instagram. Rolo o feed, alterno para o Twitter. Detesto notificações, então tiro os numerozinhos das bolinhas vermelhas que pairam sobre o app do LinkedIn. Depois elimino também as notificações do Facebook. Vejo a lembrança que o app traz de três ou quatro ou cinco ou seis anos atrás. Há quanto tempo estamos no Facebook, não é mesmo? Acabo vendo algum vídeo velho de humor, alguma pegadinha ou vídeos de prensas quentes esmagando sabonetes. Faz um barulho que parece o grito de alguma alma que agoniza no inferno, mas pode ser estranhamente satisfatório. Depois volto para o Instagram ou para o Twitter, ou para a alternância entre os dois. Putz, já deu a hora de tomar banho e depois esquentar a água para o café. Esqueço com frequência de tirar a roupa da máquina, que botei para bater na noite anterior. É estranho fazer isso? A roupa não fica supercheirosinha, mas não fede, então já considero positivo.

Isso de ficar rolando as redes socials tem até um nome chique em inglês. Se você ainda não ouviu, vou escrever aqui. Doom-Scrooling. Seria tipo uma “rolada do apocalipse”. Por favor não pense besteira sobre a rolada. Sei lá qual a melhor tradução para scroll. Mas é basicamente isso. rolar infinitamente redes sociais ou páginas da internet com nosso cérebro-máquina colhendo todo tipo de informação possível. Em especial as negativas. Especialistas em tratamento de vício dizem que nós seres humanos temos pré-disposição em juntar informações que nos deixam em estado de alerta. Informações que nos ajudam a sobreviver. Eu acho curioso que sempre que cavamos nessa direção da primitividade do cérebro chegamos na sobrevivência. É meio óbvio, sei lá. Mas a parte curiosa que eu acho disso é como a gente hoje não se preocupa muito com a sobrevivência. Obviamente que nós criaturas privilegiadas de não se preocupar com a sobrevivência, infelizmente há pessoas pelo mundo que tem que se preocupar o tempo todo e muito e como isso é uma tragédia só reforça meu ponto aqui. A sobrevivência, para o cidadão ocidental médio, foi delegada a um programa que roda em segundo plano enquanto rolamos telas infinitas em busca de alguma satisfação que não encontramos no fim da página porque a página não tem fim.

eu: hoje vou dormir cedo
eu 2h47: então quer dizer que elefantes usam as dobras do couro para matar pequenos insetos

Isso não acontece comigo antes de dormir. Hoje tenho adormecido fácil. Mas sinto que ao ser acometido do Doom-Scrolling matutinamente eu fico cansado pelo resto da jornada até fechar os olhos novamente e repetir tudo de novo. Tá, esse cansaço pode ser resultado de um monte de coisa, uma combinação exaustiva de fatores podem fazer com que eu me arraste até a água quase fervente que empretecerá de café nos próximos momentos. Um sem número de atividades acumuladas e pensamentos acumulados podem fazer parte dessa grande pedra que sisifianamente eu rolo diariamente. Pra no fim ela me esmagar rolando ladeira abaixo no ritmo dos meus polegares sobre a tela.

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Desde 1957 a humanidade já lançou mais de dez mil satélites. A maior parte deles está desativada ou completamente destruída. Todos esses equipamentos em que foram investidos bilhões de dinheiros agora são lixo flutuando no vazio ao redor da terra. Pedaços metálicos que viajam na velocidade absurda do vácuo do além-celeste. O dia na Estação Especial Internacional, do nascer ao por do sol, passa muito mais rápido que na terra. Não sei como os astronautas contam o tempo. Se o dia inteiro de 24 horas terrestres ou o dia de dezenove minutos. Eu contaria os dois. Imagina quantos anos teria o astronauta que passa cinco anos na Estação Espacial Internacional. Eu nunca quis ser astronauta. Me parecia precisar de esforço demais para ficar em um lugar muito pequeno e apertado sozinho admirando a imensidão do espaço escuro. Ainda acho que é esforço demais para observar o vazio do universo. Geralmente faço isso no sofá.

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Em algum momento (ou alguns) alguma parte dos 9730 satélites desativados ou sucateados ou completamente destruído em pedaços passou perto de bater na Estação Espacial Internacional. Um parafuso no lugar errado pode destruir tudo e matar todas as pessoas lá dentro. Eu acho. Eu imagino que o Doom-Scrolling faz isso com a gente em alguma medida. Um trilhão de pedacinhos de informação ficam orbitando nossas sinapses até que um deles colide de uma maneira irreversível com um pensamento ou emoção. Você já se sentiu assim?

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Siga com bravurasiga com cuidado.

A presente epístola não chegou à sua caixa de correios na última semana e me preocupou sobre minha capacidade de escrever com tanta frequência. Eu sou o Wing Costa e sou bem inseguro, mas a essa altura acho que você já sabia disso.

[este texto foi originalmente publicado na newsletter A Presente Epístola em 22 de setembro de 2020]

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