Petróleo

Os 17 contratos de partilha da produção de petróleo em campos no pré-sal já em desenvolvimento poderão gerar US$ 204,4 bilhões para os cofres da União nos próximos dez anos.

Esse é o primeiro parágrafo da primeira notícia sobre petróleo que busquei no google. A notícia é do jornal O Globo. O petróleo é o ouro negro. Nós estamos acostumados a ouvir notícias sobre o petróleo, como o Brasil vai se comportar na exploração e exportação e importação do óleo. O petróleo é uma mistura de substâncias oleosas mais denso que a água e muito inflamável, o principal responsável por combustível no planeta há muito tempo. Um recurso importantíssimo.

Desde a antiguidade o ser humano conhece o petróleo. No Oriente Médio há registros do uso de petróleo e betume há quatro mil anos antes de Cristo. Pessoas usavam o petróleo para calçar ruas (como nós usamos) e causar guerras (como nós usamos). Arrisco dizer que eram guerras mais simples, molhar as flechas no líquido viscoso atear fogo e atirar nos inimigos, que não conseguiriam apagar as chamas com água. Eram mais simples, mas não menos feias.

Dubai é uma cidade toda chique e modernosa e chuto sem medo que a gente pode responsabilizar o dinheiro do petróleo por isso. Os petrodólares. Expressão engraçada, junta petróleo e dólar na mesma frase. Um país que produz muito petróleo é a Venezuela. Muito petróleo mesmo. A Venezuela é um pedaço de terra que boia nessa óleo. Dá pra sentir a terra mexendo com o suco de dinossauro lá embaixo. Tá, essa última parte é mentira. Mas não é uma mentira que a economia da Venezuela é necessariamente construída sobre o recurso. Chineses antigos perfuravam o solo com grandes varas de bambu para retirar petróleo e betume. A Venezuela desenvolveu-se economicamente a partir do petróleo. No início a riqueza serviu para enriquecer ainda mais as pessoas ricas, inclusive outros países muito interessados na paz de países que tem muito petróleo. Pela proximidade geográfica e interesses em comum (exploração), nosso simpático país vizinho ganhou um enorme passivo cultural e hoje é uma potência na prática de baseball. Só coisa boa. Mas depois de um tempo, em um período de desgaste do modelo que se apresentava, surgiram outras ideias, outros ideais. Em algum momento decidiram usar o dinheiro do petróleo para desenvolvimento dos habitantes do país. Foi quando a Venezuela deu um salto em IDH, educação, saúde, segurança e produziu posturas afirmativas relacionadas aos direitos humanos.

O dinheiro do petróleo fez também isso.

O petróleo, por outro lado, e o combustível que partiu dele, poluiu a água e o solo e o ar. E também a cabeça das pessoas. Um antigo ministro da Energia da Venezuela, chamado Juan Pablo Pérez Alfonzo, dá nome ao aeroporto público da cidade de El Vigia, em Mérida. Eu queria fechar com ele a nossa editoria de economia. Ele foi um dos criadores da Organização dos Países Exportadores de Petróleo, a Opep, como você já deve ter ouvido falar ou estudou em algum momento.

O Juan era um sujeito muito entendido de petróleo. E um dia há mais de 20 anos ele falou que o petróleo seria a nossa ruína. Acho que por nossa ele se referia à Venezuela. O petróleo é “o ouro negro”, mas para Juan Pablo Pérez Alfonzo, antigo ministro da Energia da Venezuela que dá nome ao aeroporto público da cidade de El Vigia, em Mérida, o petróleo é o excremento do diabo. Ele até escreveu um livro sobre isso com o intrigante título de “Afundando-nos no excremento do diabo”.

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Você lembra do jogo que comentei na semana passada, Celeste? Espero que sim. Tenho me divertido muito com ele. E tenho pensado muito nas dificuldades que a protagonista apresenta durante todo o jogo. Vou te lembrar. O desafio da Madeline é subir a montanha que dá nome ao jogo. Celeste.

Subir uma montanha é difícil, eu mesmo tenho minhas péssimas experiências tentando. Mas a Madeline é aguerrida. Ela é chamada de teimosa algumas vezes subir a montanha. Quem chama ela de teimosa são as personagens que a gente pode considerar vilãs. Uma dessas personagens é a própria Madeline numa versão sombria que sai do espelho. A desenvolvedora do jogo se chama Maddy Thorson e é uma mulher trans. Eu já joguei outros jogos desenvolvidos pela Maddy, um deles um jogo superdivertido chamado Towerfall. A produtora se chama Matt Makes Games. Matt é o “nome de batismo” (não sei o termo certo, desculpem) da criadora que hoje se chama Maddy.

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Eu descobri que ela era uma mulher trans lendo em um texto que achei tropeçando por algumas ruas da internet. No texto, Maddy explica aos fãs que Madeline é uma mulher trans também. O texto é direto e explicativo, mas também muito bonito. Eu estou para além da metade do jogo e não poderia te dizer “a personagem principal desse jogo é uma mulher trans”. Mas ela é. E isso é incrível. Como é bonito e representativo ter uma personagem tão querida e carismática declaradamente uma mulher trans. Como a criadora do jogo. Ainda no texto, Maddy diz que de fato não é claro nos termos do jogo que Madeline é uma mulher trans. Maddy conta também que fez o texto com o objetivo de tornar isso canônico.

Eu me identifiquei demais com muitas das dificuldades psicológicas apresentadas pela Madeline durante a jornada que estamos fazendo juntos ao topo da montanha Celeste. Ela enfrenta a si mesma em crises de confiança e ataques de pânico. Ela respira e faz flutuar uma pena para que o foco na concentração da personagem e do jogador façam com que aquele desafio fique para trás. Ela é chamada de teimosa e louca e tem alguma ajuda negada e fica triste e fica confusa. Nada disso é diretamente ligado à sexualidade da personagem. Eu me identifico e qualquer pessoa também se identificaria. Maddy, no texto explicativo, disse que ela própria não tinha consciência de ser uma mulher trans na época em que fazia Celeste. A batalha da criadora se mistura à batalha da personagem. Acho que elas conseguiram subir juntas essa montanha.

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Não tem muito tempo que comecei a seguir o perfil Descolonizarte, no Twitter. Faz parte daquilo que comento com você em toda carta de tentar transformar minhas redes sociais em um local mais pacífico, de contemplação, de alguma coisa que me toque para além do ódio que tenho sentido de pessoas em aglomerações absurdas. Parece meio ultrapassado ficar puto com a diversão das pessoas em meio à uma pandemia, mas não é não. Eu deveria me importar menos, mas sinto meio que uma invasão da minha rede social de foto com essas coisas. Mas vai acabar logo, em breve nem vai ser uma rede social de foto mais. Após a rápida reclamação, vou deixar aqui coisas bonitas que compensam esses meus maus sentimentos.

Cara, como isso é bonito.

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Siga com bravura, siga com cuidado.

Eu escrevo essa carta sentindo um calor absurdo. São 22h15 em Vitória e um aplicativo me diz que fazem 26 graus. Aqui na sala um ventilador tenta dar conta de tudo isso enquanto eu digo para você que eu sou o Wing Costa, mas você já sabia.

[este texto foi originalmente publicado na newsletter A Presente Epístola em 17 de novembro de 2020]

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