Para lá de Marraquexe

Curtir vem do latim conterire, que significa esmagar ou triturar. Ou endurecer, como é feito com o couro, que é mergulhado em uma substância até perder o aspecto da pele de um animal. Eu lembro de certa vez ver um programa na televisão sobre os curtumes na Índia ou em algum país da região. Acho que era o Marrocos. Como se da Índia pro Marrocos não fosse um voo de 15 horas, como me explicou o Google (eu não sabia como me expressar melhor sobre a distância bizarra e como esses dois países estão em continentes diferentes e como é um absurdo confundir um com o outro).

Me lembro de um desses repórteres que fazem viagens para mostrar locais exóticos. Ele ou ela cobria o nariz como quem diz que aquele lugar tem o pior cheiro do mundo. Logo em seguida essa figura genérica das tardes de sábado da televisão brasileira descrevia que aquele lugar tinha o pior cheiro do mundo. E era tudo muito colorido. E havia pessoas completamente cobertas por aquela água colorida que curtia o couro dos animais. E como aquilo não curtia o couro dos outros animais, os vivos e cientes de si no mundo?. Aquilo me assustava. Eu me sentia mal por aquelas pessoas. Sentia náusea de ver pessoas trabalhando com o corpo inteiro numa água que exalava o que a pessoa que mais parecia comigo naquela filmagem dizia que era o pior cheiro do mundo. Eu odeio isso.

Curtir para mim sempre significou algo ruim a partir dessa visão. Aquelas pessoas estavam curtindo o couro e queimando a pele. Outras reportagens em outros programas de outros horários da tv aberta diziam que aquelas pessoas corriam muitos riscos e estavam sendo envenenadas de pouquinho em pouquinho. Acho que no agro brasileiro é assim que funciona e talvez alguém em Marraquexe deva ver trabalhadores brasileiros numa lavoura de café no Norte do Espírito Santo e considerar aquela situação insalubre algo exótico e divertido. De repente curtir é bom. Antes a gente dava estrelinha no Twitter. Curtir foi meio que uma tradução safada de like. Me pergunto se foi o próprio Face que sugeriu, sei lá até onde esse pessoal da dominação mundial pode ir em influência de desenvolvimento linguístico. Não gosto de curtir. Outro dia um amigo me procurou com uma história triste e eu falei com ele para fazer o que eu fiz em momentos de tristeza. Momentos de perda. Curti a dor. Enfiei ela em algum líquido de sentimento dentro de mim até ela perder o aspecto orgânico. A dor vai virando data no calendário e tropeço na memória. De repente você se pega chorando. Tropeço na memória. De repente é finados.

The number of vats available and workers employed in the medina’s biggest tannery allow for a ...

(Os curtumes sempre me pareceram jazigos. Foto do NICO AVELARDI para a National Geographic)

A tannery worker handles a large hide, after two weeks of macerating it in limestone mixed ...

(O trabalhador do curtume. Pelo mesmo fotógrafo no mesmo link)

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A Paixão de Cristo sempre foi um momento marcante para mim. Na paróquia da minha cidade, acontecia a procissão com Nosso Senhor Morto, uma imagem de cristo de tamanho real que saía em procissão. Cristo foi morto naquela noite. Tanto figurativamente enquanto ritual, quanto efetivamente na fé daquela assembleia. Havia também o beijo na cruz. Uma fila de pessoas se reunia para beijar um crucifixo que representaria o Cristo com suas chagas. Eu ficava reparando em que parte do Cristo as pessoas beijariam. Eu tentaria beijar a menos beijada. Chagas e cabeça eram as mais procuradas. Pés também.

A Paixão de Cristo sempre foi um ponto de dúvida gramatico-etimológica. Paixão, me foi ensinado por todas as novelas do SBT, era aquele amor incontrolável, selvagem e instintivo. O lance da eletricidade. Pele encosta na pele, cruza o olhar e quando você vê um protagonista com nome duplo beijasse a mocinha Maria de algum lugar específico, sempre interpretada por Thalia. Como a paixão podia ser o desejo ardente e o sofrimento do filho de Deus?. Paixão vem de Passus, , que no latim significa o passado de “sofrer“. Há também paixão pela causa. Um sentimento quase gravitacional a um ideal. Tudo isso, o sentimento romântico e o entusiasmo por um tema, tudo me parece sofrimento em algum grau. Viver é sofrer, diriam algumas correntes budistas. Viver é experimentar o tempo. Acho que só experimentar não significa muito o que eu quero dizer. Viver significa curtir no tempo.

***

Esta carta me pareceu mais simples que as outras. Os sentimentos vieram até mim e eu quis fazer uma ponte quase mística entre eles e vocês. Espero que tenha te sido tão sincero quanto me foi.

Segue com bravura, segue com cuidado. Deixa o coração bater sem medo.

Eu sou cada vez mais o Wing Costa, espero que você não canse de saber.

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