Meu pai era astronauta

Alguma parte cigana do meu sangue tem me dito que o futuro vai ser bom. O presente tem sido bom, apesar de presidentes lunáticos, pandemias mortais e outras coisas que infelizmente minha mão não alcança.

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Outro dia desses li uma notícia sobre o novo Coronavírus, o vírus causador da desgraça. De acordo com a informação de diversos {!} jornais, entre grandes e pequenos, um enxaguante bucal se mostrou eficaz contra o SARS-cov-2. Mais embaixo. Bem mais embaixo, explicam que a pesquisa foi feita com cento e poucas pessoas e ainda não foi publicada em revista científica. Ou seja, prova absolutamente nada. Sabe o que também é eficaz em laboratório contra o mesmo vírus? Um tiro de espingarda calibre 12. Mas nessa firma somos contra o armamento.

O pangolim é um animalzinho engraçadinho parecido com um tatu. Ele é amplamente caçado em regiões da África e da Ásia, de onde é originário. Em 2019, mais de 100 toneladas de escamas do bichinho foram apreendidas com contrabandistas. Pessoas que caçam esses animais para vender pelo alto valor das escamas. Além da carne ser uma iguaria em alguns lugares. Escrever a última frase me deixou um pouco mais triste. Eu já tinha visto algo sobre o pangolim antes. Dessa vez descobri até que tem uma sociedade protetora. Tudo isso eu vi num vídeo do canal de notícias Now This no Instagram. A notícia foi contada através do caso de Corona, ou Cory, para abreviar, uma pangolim resgatada de uma situação de perigo. A pangolim foi batizada com o nome do vírus que foi associado ao bichinho quando estava todo mundo querendo achar um culpado para espancar e linchar. Lembra o que fizeram com os macaquinhos naquele surto de Febre Amarela? Daqui com essas lembranças selvagens do ser humano eu me sinto escrevendo de um lugar exótico para alguém em uma civilização aí do outro lado da tela. Mas a civilização das telas também vai de mal a pior. O que é mais estranho, o encontro Ratinho & Amaral ou o encontro Danilo Gentili & Vanucci? De onde surgiu esse Danilo Gentili mesmo?

Sabe a GNT, aquele canal de coisas de casa, bricolagem, discussões profundas sobre comportamento, gastronomia, moda, sexo, séries, documentários e filmes? Então, fiquei sabendo ontem que ele foi fundado em 1991 (mesmo ano de fundação de mim, mas sou mais velho, nasci em janeiro) com o nome Globosat News Television. Um canal de notícias. Hoje dizem que GNT quer dizer GENTE de uma maneira hipster como se fosse uma bio do Twitter. Mas antes era notícia. E notícia virou coisas de casa, bricolagem, discussões profundas sobre comportamento, gastronomia, moda, sexo, séries, documentários e filmes.

E Pangolim. E um tiro de espingarda calibre 12 em lâminas de miscroscópio,

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Eu me aventurei por uma realidade fantástica de dois personagens de quadrinhos fumetti, que eu descobri pesquisando para te escrever essa carta que é o formato de quadrinhos italianos desses westerns de cowboy. Eu sempre achei muito curioso como western, basicamente um gênero que retrata a vida no interior desértico de uma parte específica dos estados unidos, pode ter alguma ligação com a Itália. Nesses quadrinhos, nos filmes com trilha de Ennio Morricone dirigidos por Sergio Leone mas com o Clint Eastwood. Será que isso veio antes do conceito de Indústria Cultural? Acho que não. Mas como era diferente o mundo. Usavam esses personagens do Clint Eastwood para vender cigarro. Meu pai fumava. Minha mãe fumava escondida.

Embarquei nesse seriado chamado Hap & Leonard, na Amazon Prime Video. Ele é todo noir e conta a história desses dois personagens. Um bem Clint Eastwood e um homem negro ex-combatente do Vietnã que incorpora o personagem do cowboy no final dos anos oitenta e é gay.

Hap and Leonard's Jim Mickle, interviewed.

O tempo inteiro você tem a impressão de estar assistindo à imitação de um clichê. Eles só bebem refrigerante. Ou isso é mais evidenciado. Eles não gostam de armas. Um clichê ao contrário. Um deboche de gênero. Eu gostava de imaginar que meu pai era um Cowboy. Ou um astronauta. O que é muito engraçado porque eu e todo mundo a minha volta sabia que ele era um vagabundo que morava há vinte minutos de ônibus da minha casa e vivia pelos bares jogando baralho apostado, vendendo droga e dando facada nos outros. Às vezes eu passava de ônibus e olhava do alto da janela pra ver se via ele em algum dos bares no caminho. Olhava com curiosidade genuína, queria ver com meus próprios olhos que ele não era um cowboy ou um astronauta. Eu queria ter certeza da minha mentira. Às vezes eu gosto de me ver como um personagem de Albert Camus. Tudo é um absurdo. Quando vi meu pai, 20 anos depois, era uma maca de hospital encostada em uma parede no fim de um corredorzinho que dava pra lugar nenhum. Era a hora do almoço ou do lanche ou sei lá. Ajudei ele a sentar e comer. Ele não queria a gelatina. Ele não me reconheceu. Achou que eu era um médico. Tinha umas tatuagens velhas e um cordão meio desses de hippie de porta de shopping. Pensei nas histórias daquele cordão que ele carregou até para o hospital. Será que algum amor deu aquele cordão? Ele amou um amor além da minha mãe. Muitos outros amores também. Nessa hora ele podia ter dito que era um cowboy ou um astronauta. Ele pediu pra eu rezar com ele. Depois não vi nem morto. Acho que foi o único caixão que eu me recusei a carregar. Preferia que fosse um foguete e ele não pudesse mais voltar para a terra. Seria um motivo mais honesto para ficar vinte anos longe. Acho que ele não queria me envergonhar ou se envergonhar ou me dar qualquer tipo de mau exemplo. Penso nisso como um ato de nobreza de quem me ensinou a roubar no baralho.

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LPA) LONG PLAYING ART: X - RAY AUDIO

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Siga com bravura, siga com cuidado.

Essa carta foi pensada ao longo de uma semana grande. No final saiu tudo diferente, mas o que não muda é que eu sou o Wing Costa. E que você já sabe disso.

[este texto foi originalmente publicado na newsletter A Presente Epístola em 25 de novembro de 2020]

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