A Yoguslavia é logo ali

Eu estava ouvindo uma daquelas playlists analógicas das quais falei na carta passada. Pop Rock and Funk Records from Yugoslavia é o título do vídeo. Uma música me chamou muito atenção. Za Tvoje Crne Oči, single de 1972 de uma banda chamada Aspalathos Brass. Eu ouvia as músicas enquanto fazia outras coisas e parei bem nessa. Para minha sorte, Zag Erlat, nosso queridíssimo host, mostra as capas dos discos que ele roda no setupzinho mais charmoso da internet mundial. Za Tvoje Crne Oči, na tradução do tradutor do Google do Croata para o Português, significa “Para Seus Olhos Negros”. Até aqui tudo seguindo nos conformes de quando a gente se fala, né? Conto uma história pessoal com elementos muito estranhos (que são parte do que eu faço diariamente de verdade, aqui é a não-ficção de várzea), tipo uma música ioguslava. Mas o aconteceu foi que a música parecia alguma coisa de Roberto Carlos. Sabe aquele ritmozinho que quando ouve você vê uma tiazinha gostar muito e bater palminhas enquanto balança de um lado pro outro. Imagino até que ponto essa turma conseguiu e ainda consegue ir para fora e inspirar a maior diversidade de sons diferentes em harmoniosa coexistência. Como um céu estrelado.

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Sobre céus estrelados (ou a busca de um), uma jovem caminha montanha acima. No meio do caminho, espinhos e plataformas mecânicas que aumentam o tamanho do salto aparecem. A jovem não desiste e descobre que tem dentro de si um poder. Ela pode dar pulos duplos. Esse seria a minha sinopse do jogo Celeste, que comecei a jogar recentemente. Um joguinho intuitivo e dinâmico como o mais clássico dos Mario e ao mesmo tempo indulgente e contemplativo, com uma trilha sonora muito, mas muito mesmo, bem construída e um sisteminha de checkpoints que vai nesse sentido. Morrer não te penaliza. Você volta do começo daquele quadro e tenta e tenta e tenta até acertar o salto perfeito e a combinação de pulo duplo e escalada para alcançar um moranguinho. Fica mais difícil com moranguinhos voadores.

Celeste vai receber 100 níveis inéditos em 09 de setembro
Na moral, olha essa arte.

Ainda estou um pouco perdido pelo mundo de Celeste, descobrindo coisas com a Madeline. Descobrindo sobre a própria Madeleine, um pouquinho da história dela e dos traumas dela e do que faz ela subir a Montanha. Mesmo a Montanha sendo na verdade uma ótima metáfora sobre lidar com dificuldades psicológicas. É uma viagem confortável em forma de joguinho viciante pelos desconfortos da jovem vida de adulto. Além dessa viagem pra dentro da cabeça da Madeline, os gráficos 2D e as artes que aparecem no meio do jogo são outro passeio gostoso. E um passeio que fala português, já que toda essa belezinha foi criada pelos brasileiros do Studio MiniBoss.

É bom demais saber que existem jogos que nos apresentam uma jornada fantástica paralela à nossa jornada pessoal. Celeste tem me feito bem.

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Tava andando pelo Twitter esses dias e tropecei num perfil incrível. Sigo alguns perfis de nostalgia, muitos relacionados à jogos, como a Deusa Nintendo e o A Sega Voltou, mas esse foi realmente um presente. A MTV Brasil que Deu Certo posta um monte de coisa bacana daquela MTV dos anos 90 e começo dos 2000, muita coisa que hoje a gente vê nas linguagens mais modernas de vídeo para internet. E era televisão. E era nos anos 90. Costumo dizer que viver no futuro é bom demais, a gente tem um monte de facilitadores tecnológicos da vida e enxerga o mundo diferente por conta disso. O pessoal daquela MTV parece que já enxergava esse mundo lá atrás. Viva!

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Essa foi uma carta escrita ao som de muitas músicas diferentes, já que permaneceu no rascunho por um tempo considerável, mas eu diria que a principal delas foi Samurai, do Djavan. Não me perguntem por que. Mas se quiserem podem perguntar, eu invento alguma coisa.

Siga com bravura, siga com cuidado.

Eu serei muito grato. E continuarei sendo o Wing Costa. E acredito que você continuará sabendo disso.

[este texto foi originalmente publicado na newsletter A Presente Epístola em 12 de novembro de 2020]

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