A tentativa de ganhar tempo te contando uma história

O tempo começou a passar estranho, então eu queria compartilhar com você uma história. É na verdade algo que aconteceu.

A primeira vez que eu vi esse velho foi encostado no muro de uma oficina perto da escola. Ele estava abaixado. Eu tinha uns doze anos. Abaixado ele era muito menor que eu. E ele fazia movimentos repetitivos com as mãos olhando para outra direção. Eu passei rápido por ali fazendo algazarra com outros meninos de também dez doze quinze anos sem perceber. Paramos para nos despedir de um dos colegas brincalhões. Um dos mais quietos de nós. O velho estava parado no mesmo lugar encostado no muro da oficina. Minha memória fotografou que de frente para a oficina morava o Rafael. Passou o tempo. Outro dia fui na casa de Rafael. Eu estava de bicicleta e tinha quase dezoito anos. O velho estava ali no mesmo lugar. Talvez do outro lado da rua sentado num pedaço de laje que seria a escada para uma casa velha amarelada com aparência descuidada colada na casa de Rafael. Uma casa fora do tempo. A laje era meio preta de musgo e terra e vida querendo romper o cimento. E o velho fazia movimentos repetitivos com as mãos olhando para outra direção. Os movimentos repetitivos eram enrolar cigarros. Ele enrolava pequenos cigarrinhos dentro de uma pequena ferramentinha, ou pequena oficininha. Entrava o fumo. Caia um pouco do fumo nos joelhos acocorados do velho. Ele enrolava o fumo. Saía um pouco mais de fumo. Ele enrolava bem enroladinho o fumo para dar forma ao fumo. Inseria um papelzinho meio amareladinho de tempo mais clarinho que um saco de pão. Enrolava o papelzinho no fumo bem enroladinho. E colocava do lado numa caixinha. E repetia os movimentos repetitivos que eram enrolar cigarros.

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Já tenho vinte e poucos anos e vou ajudar a avó de Rafael com as compras da feira. De algum dia de feira em que eu tenha estado naquele sítio de memória. Eu entrei com as compras e depois voltei para entrar com mais compras. A oficina já não estava mais ali, a casa velha estava ali. Ao lado da antiga oficina agora igreja neopentecostal cujas músicas nos faziam rir pelo teor apocalíptico. O velho está ali de cócoras na parte sem cimento da calçada que passa em frente à igreja cuja parede parece que manteve o fogo dos desenhos de carro mas inseriram pombas no lugar dos veículos. Atrás dele uma cerca velha já bem preta e um terreno vazio que dava pra ver o outro lado e no meio desse terreno vazio uma cesta de basquete de plástico azul e branca.

Como os detalhes do cenário já me eram familiares eu devo dizer que só tomei tempo para descreve-los para te ajudar a entender o quanto eu pude manter o olhar fixo no velho. Abaixado olhando quase para os dedões ele continuava enrolando cigarros. As unhas do pé do velho estavam secas e pareciam duras e grossas. E ao mesmo tempo capazes de se desmanchar como areia. Marcas da idade. Pés sedimentares.

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As mãos do velho eram impecáveis. Lisas e reluzentes mesmo com uma quantidade grande de rugas e pelos brancos entre os dedos e nas costas da mão. As mãos faziam movimentos rápidos e precisos que pareciam durar séculos. Era mecânico. Era uma máquina funcionando. Muito desgastada pelo uso prolongado e pelas manutenções escassas. Mas funcionando. As unhas eram lustrosas. Cortadas redondas. Meio amarelo enegrecidas nas pontas. Pontas de dedos com calos que pareciam almofadinhas de um cão negro mordaz que agora vagabundeia com os pelos erigidos pelo desgaste pelo uso prolongado e pelas manutenções escassas.

As almofadas das patas dos animais como os gatos, cães e ursos são chamadas de coxins. Elas servem amortecer o impacto e proteger as estruturas das patas, são úteis também para criar atrito e evitar que o animal deslize ao se impulsionar para um pulo, por exemplo. (site de origem dessa informação).

E as mãos do velho repetiam os movimentos repetitivos que eram enrolar cigarros. E guardavam numa caixinha do lado do velho. Quantos cigarros o velho já enrolou na vida? Será que ele só fazia da vida enrolar cigarros ou eu é que só prestava atenção no velho que por acaso estava ali enrolando seus cigarros quando eu por acaso passava na rua. Que coincidência acidental que nos cruzava quando eu passava por ali e ele enrolava seus cigarros. O bigode não parecia tão amarelado de fumo. Mas parecia que já havia sido negro. E amarelado e negro. A camisa com manga curta e poucos botões abotoados. A calça cinza com as bainhas dobradas até conseguirem alcançar o fim do pé do velho. Os pés velhos. Eu me senti tentado a te contar nesta carta que ele tossia. Ou que ele cantava algum canto ancestral. Ou que conversava baixinho com alguém que não estava ali. Mas ele não fazia barulho nenhum. Uma dessas vezes eu tentei prestar atenção, mas não ouvi som.

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Nunca mais passei naquela rua e me pergunto se aquele velho continua lá. Ou já morreu. Ou está em casa aguardando o momento oportuno para que nos cruzemos mais uma vez e ele em vez de enrolar fumaria um dos seus cigarros e se daria por vencido. Ou em outra versão ele me ofereceria um fumo daquele. Mas não acho que pessoas ofereçam cigarros aleatoriamente a estranhos. Acho curioso o fato de cigarros serem liberados mediante a proibição da propaganda e a obrigatoriedade de publicação de propaganda negativa no próprio maço de cigarro. Tem lugares que falam “carteira”, eu acho.

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Essa memória me veio como metáfora, mas como eu já não me lembro. A presente epístola seria enviada semanalmente. Toda terça-feira. O que faz você ter certeza que terá este diálogo disponível neste dia. Mas pensei em como as cartas eram enviadas entre amigos. Pensei tanto nos amigos ordinários que escreviam cartas uns para os outros como escritores famosos quanto nas pessoas importantes que trocavam correspondências por motivos maiores, como minha tia-avó Luzia Aldira mandava para meu avô. E as respostas dele com uma foto meio três por quatro com umas palavrinhas escritas numa letra bem bonita atrás. “para minha mana. Longe dos olhos, mas perto do coração.”

Pensei então que poderia garantir então que escreverei uma carta por semana, mas sem dia ou horário, para que usemos esse espaço sobre o tempo como uma troca de cartas verdadeira. Me digam como vocês estão. Me respondam com uma memória ou um abraço. Me perguntem coisas. Me afirmem coisas.

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Segue com bravura, segue com cuidado. Deixa o coração bater sem medo.

Esta carta foi escrita ouvindo o gotejar do tempo. E com um certo medo da materialização de uma entidade do tempo velho. E um certo medo do que você pode achar dessa minha nova forma de te contar o que acontece na minha cabeça. Me responde dizendo o que achou? Eu sou o Wing Costa, sabia disso?

[este texto foi originalmente publicado na newsletter A Presente Epístola em 29 de setembro]

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