A Sociedade do Sacrifício

É comum que as comunidades católicas tenham santas e santos como padroeiros. As paróquias e comunidades levam o nome de alguns desses notáveis da fé católica. A paróquia da cidade em que cresci é defendida por João Batista. As histórias dos santos sempre me impressionaram muito, afinal, eu sou um sujeito curioso para histórias. Mas a história de hoje não é sobre esse santo.

É comum também que cada santo tenha sua “área de atuação”. Há os padroeiros das profissões, santas e santos que abençoam algumas atividades e defendem outras de malefícios. Como a comunidade em que cresci tem uma grande participação de produtores rurais, um dos santos de maior devoção por lá é São Sebastião. Eu, menino pequeno, tive um problema de saúde e minha mãe fez uma promessa para o santo. Todo dia de São Sebastião ela me levaria vestido de vermelho à missa. Já mais velho descobri que o santo é defensor contra as pestes do campo e epidemias. Na Idade Média foi venerado como protetor contra a peste e a lepra.

A imagem de São Sebastião, uma das figuras mais conhecidas da arte sacra, mostra um homem jovem amarrado a uma árvore ou tronco com o corpo atlético crivado de flechas. Uma dessas imagens tem lugar na igreja que frequentei por quase toda a vida em Cariacica Sede. Me espantava e gerava fascínio aquele sujeito ali, com uma expressão resignada olhando para o céu com duas flechas no torso e uma na perna. Mais recentemente descobri que o soldado Sebastião de Narbona não morreu naquela imagem de mártir. Soldado querido pelo imperador Diocleciano, ele vivia escondido a fé dos cristãos. Depois que descobriram o que ele realmente era, perseguiram, amarraram, torturaram e flecharam o corpo do jovem guerreiro. Que não morreu ali. Ele ainda passou por mais dor e tortura e teve seu corpo dilacerado e jogado em diferentes partes do esgoto de Roma, para que não se tornasse mártir. Se tornou.

Dia de São Sebastião. Agradeça e peça as bênçãos deste santo!

Além de mártir, protetor dos animais e defensor contra as pestes, São Sebastião é contemporaneamente associado ao público LGBTQI+. A narrativa de quem esconde o que sente verdadeiramente para se adequar a uma realidade opressora parece ter encontrado um eco recente no sofrimento dessa parcela da população. Em alguns lugares também é possível ler sobre o corpo atlético do santo e da imagem de sofrimento extasiado, mas acho temerário e perigoso fazer a associação. James Martin, padre nomeado pelo Papa Francisco como consultor de comunicação do Vaticano, declarou que alguns santos seriam provavelmente gays. Talvez o nobre guerreiro Sebastião seja um deles.

.mundos

Nós, como pessoas viventes desse virtual e convencionalmente chamado de ocidental lado do globo terrestre (a terra é redonda) estamos sujeitos a um visão específica do mundo que herdamos dos antigos. Nós pensamos dentro de uma lógica judaico-cristã que, considerando os dois radicais, tem pelo menos cinco mil anos de convicções. O pensamento, o sumo vital das ideias, está quase que biologicamente presente em nosso DNA de pessoas dessa metade da laranja (e confesso que me incomoda separar o mundo assim em dois, mas sigamos).

Os nossos antepassados, desde Abraão, acreditam em sacrifícios para o seu Deus único, que se alegra e abençoa e leva abundância para o seu povo. Em algum momento isso desanda e uma nova necessidade de sacrifícios se apresenta para que a humanidade possa viver um longo período de gozo da paz. O próprio Deus teve seu período de sofrimento. O Deus que se deixou torturar e assassinar, mas no fim enviou seu Espírito Santo. É descansar no Espírito, como no jargão de algumas manifestações neopentecostais e alas pentecostais da igreja católica, chamada de carismáticas.

É meio bizarro eu falar nossos antepassados desde Abraão porque eu acabo considerando os “nossos” antepassados essa galera fundamental para uma sociedade judaico-cristã, olha como isso se retroalimenta. É curioso também pensar nessa cultura como uma cultura branca, posto que o pai da fé bíblica era proveniente da região onde hoje fica é o que a gente conhece como Cisjordânia, capital da Palestina. As pessoas lá não são brancas, não é mesmo? É muito necessário que a gente busque “desembranquecer” nosso imaginário. Mas esse não é o assunto aqui. O assunto é o sacrifício. Talvez a romantização do sacrifício no aguardo de uma recompensa. O caminho precisa ser difícil, doloroso, árduo, penoso. Se não não vale a pena. Easy come, easy go. Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, bradou meu amigo professor de filosofia durante uma conversa que originou essa linha torta de pensamento. Espero que essa carta não seja assim tão difícil de ler, mas igualmente recompensadora.

.polaroid

Ouvi recentemente um podcast sobre solidão. Fazia o já desgastado contraponto entre solidão e solitude, você já ouviu falar? Nesse podcast os interlocutores exploravam as benesses da “sociedade super-solo”, uma definição que eu desconhecia até o programa. Eu até achei louvável procurar coisas boas em estar sozinho. Eu mesmo não consigo, me identificando imediatamente com o rapaz participante do podcast. Minha presença me assusta, me incomoda em muitos aspectos. Estar sozinho, e não trato aqui de estar romanticamente sozinho, é mesmo assustador. Mas esses medo tem me levado ao outro extremo do pensamento. Talvez a solução não seja abraçar essa “sociedade super-solo” teorizada pelo pesquisador japonês Kazuhisa Arakawa, até porque estar sozinho já é assustador para mim, imagina então viver numa cultura que cria um karaokê para um.

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O contraponto para isso veio até mim imediatamente. Comecei a ver o filme AmarElo, “aquele do Emicida”, no mesmo dia em que ouvi o podcast. Vi só 15 minutos do filme, talvez menos. Ele é uma versão estendida de, olha só que curioso, um podcast. Pouco depois de lançar o disco, o Emicida lançou esse podcast de mesmo nome, AmarElo, mas com o aposto – O Filme Invisível. Adorei o aposto. São três episódios rápidos. Acho que ele começa igualzinho, não lembro direito.

“Exu matou um pássaro ontem com uma pedra que atirou hoje”

Uma parte me tocou nos primeiros 15 minutos do filme que tá disponível na Netflix. O cantor Mateus Aleluia, do antigo grupo Os Tincoãs, diz que a natureza tem suas leis o homem que tem a moral. Ele fala isso rindo, como ri quando diz que se guiava pelo barulho do sino da igreja, a mesma igreja que perseguiu a religião e a cultura e as manifestações dos seus. Ele fala sorrindo e é um sorriso bonito.

No filme também tem uma parte assim: tudo que noiz tem é noiz.

.tchau

Essa newsletter demorou o tempo que a pedra lançada hoje demora para atingir o pássaro ontem. É tudo para ontem. Eu sou o Wing Costa e estou o tempo inteiro tentando viver o presente, acho que você também já sabe disso.

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