Visitas pela janela

O fim das coisas me deixa sempre muito pensativo e desencadeia uma série de emoções. Imagina isso perto do dia de finados?

Fui visitar meus familiares, aqueles que estão acima da terra e os que já não estão mais. Minha avó segue com muito medo do coronavírus. Eu fico feliz pela precaução dela com tudo. Não permite que ninguém entre em casa, então converso com ela eu do quintal, ela da janela. O assunto não varia muito. “Quando será que isso vai acabar, hein?”. “Já está chegando a vacina”. “Que bom que você é medroso igual a mim”.

Minha avó já vinha numa crescente de medo que sempre me preocupou. Mulher forte e de temperamento difícil, sempre ocupou espaços diferentes nas minhas emoções. Passei a pensar na dureza direcionada a mim como carinho e cuidado, formas de me deixar mais forte. Ela não é bem assim com os outros netos. Deixei de investigar há um bom tempo. Carrego algumas cicatrizes. Carrego também muito amor.

Tirinha meio apócrifa do Tiago Lacerda (@elcerdo na rede social de sua preferência)

Após a visita ao quintal e à minha avó da janela, fomos eu e Andreia ao cemitério. Poucos vendedores de flores na porta. Muro pintadinho recente de cal branca. No campo santo um número quase igual de visitantes e coveiros. Os funcionários da prefeitura andavam pelos túmulos tranquilamente e se comunicavam de longe, às vezes com palavras gritadas que pareciam baixas demais para um grito, às vezes só com olhares e acenos de cabeça. Um jovem de bermuda e casaco parava pensativo sobre um túmulo. Eu e Andreia procurávamos o local em que mamãe e vovô e outros parentes que não conheci estão. O cemitério é velho e confuso. Achamos. Pouco antes de chegarmos lá um senhorzinho, já para além dos 60, pediu uma ajuda. Ele queria acender velas no túmulo dos familiares, mas os joelhos tinham impedido a primeira tentativa com uma quase queda. Ele disse que estava bem, mas sentou numa tumba bem em frente da qual renderia homenagens e pediu para que a gente ajudasse. Ajoelhei ali e acendi algumas velas enquanto ouvia a história de todos os parentes que estavam ali. E de como as pessoas não visitavam mais seus mortos. “Ninguém acredita em mais nada, meu filho”. Pensei no garoto de alguns túmulos atrás. Não passava dos 20 anos. Eu tava ali também. Acendi todas as velas num cantinho do túmulo velho. A laje de pedra que costuma esconder a terra de dentro já não existia mais. Pai, mãe, irmãs e alguns sobrinhos do velho estavam ali. Ele passava a mão nos joelhos, ajeitava o boné, passava a mão no rosto. Não o vi chorar em nenhum momento. Quando me despedi para visitar os meus, fiquei pensando se não devia ter ouvido mais a história. Já um pouco longe, ele perguntou: “e você? É de que família?”. Disse que era neto de Seu Racine. Estava ali para visita-lo. “Foi muito meu amigo, mas eu moro na roça. Continuo na roça”. As palavras já estavam mais distantes e eu mais perto da pedra preta que eu coloquei sobre mamãe e vovô. Joguei uma pá de terra em cada caixão. A primeira, orientado por um tio. Sentei perto do muro do cemitério e chorei. Mas vamos jogar uma pá de cal neste assunto, por ora.

***

Como eu disse na carta anterior, tenho seguido muitos artistas em redes sociais. A maioria fotógrafos e quadrinistas. Vou tentar deixar uma sessãozinha por aqui para isso, vamos trocar influências e referências? Vou deixar aqui hoje um fotógrafo que tem me impressionado muito. Acho que a maior parte do trabalho dele é pós produção. Não sei.

A post shared by @austinprendergast
October 24, 2020

Todas as fotos são tipo um filme Wes Anderson com a paleta de cor da aura do Adam Driver, se fosse produzido por algum serviço de streaming hipster tipo HULU (me patrocina, linda).


Esta carta foi escrita ao som de várias músicas libanesas que ouvi num canal do Youtube chamado My Analog Journal. Tem mais um monte de sets de diversos países do mundo (conheci pelo set brasileiro). Além de ser uma loucura de viagem pelo mundo através de música, também é um canalzinho gostoso de assistir. É uma das coisas que eu colocaria na tevê para ficar de plano de fundo enquanto a vida acontece. Isso e imagens de cavalos correndo.

Running Horses by Gary Samples

Muito bonito e tranquilizante, né?

Siga com bravura, siga com cuidado.

Eu realmente queria chegar a mais caixas de entrada e dizer que eu sou Wing Costa, mas você já sabia disso.

[este texto foi originalmente publicado na newsletter A Presente Epístola em 5 de novembro]

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