Portal da cor

Eu gosto do nome das coisas. E desgosto das coisas pelo nome também. Tem esse filme de 1987 chamado Bagdad Café que eu nunca vi. Está na Amazon Prime e na minha lista. E ele me parece um filme que eu vou adorar. Nunca vi e já gosto logo de cara se me perguntarem eu vou dizer que gosto. Sem nunca ter visto. Só pelo nome. O nome é massa né? Bagdad café, um nome sonoro, meio estranho que não diz muita coisa, mas é meio engraçado de falar. Tem uma palavra que a gente não fala com frequência e uma que a gente fala todo dia.

Uma escritora-professora-jornalista de quem gosto chamada Juliana Cunha escreveu uma vez em seu blog (sigo com saudades do formato. E do blog da Juliana). No texto ela dizia que o nome perfeitos é Franz Kafka. Um nome comum e um cheio de mistério. Passei a fazer as pazes com meu nome a partir disso. Ainda não gosto do nome dessa carta, por outro lado. Se tiver alguma sugestão eu agradeço.


Nesta semana o Milton Nascimento comemorou o aniversário de 78 anos. Eu comecei a ouvir Clube da Esquina recentemente. Confesso que prefiro as músicas do Lô Borges, mas eu não entendo nada de música. E isso também não me impede de reconhecer o quão incrível é a criatura Milton Nascimento. No dia do aniversário dele fui surpreendido com um tuíte. A publicação é ilustrada por um jovem Milton Nascimento sentado num banco em algum país com neve. A foto é linda. O tuíte explicava que aquela foto tinha sido achada por acaso no meio de um monte de negativos numa caixa para vender num desses mercados de pulgas, não sei bem como chamar. Fui atrás das outras fotos desses negativos perdidos e cheguei no sujeito que tinha encontrado aquelas raridades por acaso.

https://www.instagram.com/p/B-pbvKcpHXv/

Essas fotos foram restauradas por uma artista incrível cujo trabalho tenho admirado cada vez mais, a Marina Amaral. Ela é uma colorista digital, como diz o perfil no Twitter. Ou seja, ela colore fotos em preto e branco, acho que as recupera também, tem um trabalho incrível de pesquisa histórica por trás. Como alguém descobre qual era a cor de determinado adereço utilizado por determinados tipos de soldados durante a Segunda Guerra Mundial? Os trabalhos mais conhecidos dela são o livro The World Aflame, publicado neste ano, e Faces of Auschwitz. Incrível como a cor da Marina faz o passado dialogar com a gente. Olhar nos olhos de pessoas coloridas faz muita diferença, pelo menos pra mim. Me faz sentir mais a dor deles. Como a Guerra é cruel. Eu desejo que a paz seja inevitável.

Assim como a Marina, tenho seguido diversos artistas nas redes sociais. São ilustradores e quadrinistas e fotógrafos incríveis. Parece que a minha navegação por esse terreno pantanoso melhorou. De qualquer forma essa plataformização, mesmo que permita aos artistas acesso ao seu próprio público como nunca no mundo (viver no futuro é muito bom), me incomoda que trabalhos apareçam em ambientes um pouco mais desorganizados, não do ponto de vista técnico, mas do ponto da confusão que pode acontecer entre a simples utilização do mesmo espaço pra mostrar meu novo cabelo e um vídeo institucional.


Leitura: comecei um livro chamado Vagabundos Iluminados, presente do amigo Bruno Duluoz. O livro é de Jack Kerouac e segue um fluxo de consciência de um jovem aventureiro entusiasta do budismo. O autor é responsável pelo clássico e marco do movimento Beatnik “On The Road”. Estou sinceramente gostando mais desse, mas não tenho conseguido ler no ritmo que eu gostaria. Só no celular tenho pelo menos quatro abas de textos de fôlego pra ler e não leio nenhum. Algumas newsletter lotam minha caixa de email e eu deixo pra ler depois e esse depois nunca chega.

Eu vou conseguir.


Siga com bravura, siga com cuidado.

Eu sou Wing Costa, um nome meio diferente e pouco usual e um nome comum. Mas isso você já tinha percebido.

[este texto foi originalmente publicado na newsletter A Presente Epístola em 29 de outubro de 2020]

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